domingo, outubro 30, 2005

CONSTANTIN CAVAFY
'ÍTACA'



Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria - nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho até ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.

[Trad. JS]

CONSTANTIN CAVAFY
'ESCULTOR DE TIANA'



Conforme ireis ouvir, eu não sou principiante.
Muita pedra passou-me pelas mãos.
Em minha pátria, Tiana, muitos são
que me conhecem. Estátuas em profusão
os senadores têm-me encomendado.

Já vou mostrar
algumas delas. Contemplai esta Réia vetusta,
cheia de fortaleza, venerável, augusta.
Vede Pompeu. Vede Mário, Emílio Paulo,
Cipião o Africano, todos lado a lado,
imagens tão fiéis quanto a um artesão
é dado fazer. Pátrocolo (que devo retocar).
Cesarião ali está, um pouco adiante,
junto ao bloco de mármore amarelado.

Uma estátua de Poseidon agora tenho em mente.
Preocupa-me nessa obra, principalmente,
como esculpir os cavalos, difícil questão.
É mister que seus corpos e seus cascos
revelem claramente, tão ligeiros eles são,
voar sobre as águas, não pisar o chão.

Mas eis, de minhas obras, a que amo realmente,
aquela em que pus maior empenho e maior emoção;
ao ascender meu espírito ao mundo do Ideal,
num certo dia do mais cálido verão,
sonhou esta imagem do jovem Hermes imortal.

[Trad. JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'O ESCULTOR DE TIANA'



Não sou principiante. Ouvido terá já
falar de mim. Lidei com muita pedra.
E em Tiana, minha terra, sou estimado.
Os senadores daqui não poucas encomendas
me vão fazendo... Peças como as que
lhe vou mostrar. Repare nesta Reia,
venerável, potente, como antiga. Veja
esta cabeça de Pompeu. Note estes Mário,
Cipião-o-Africano e Paulo Emílio.
E todos parecidos quanto eu soube.
E este Patroclo, que retocarei.
Aquele além, ao pé desses pedaços
de amarelo mármore, é Cesáriom.

Ultimamente, tenho-me entregado
a conceber Poseídon. Os cavalos
são o que mais me ocupa. Modelados
com tal leveza os corpos, que suas patas
não possam parecer que pisam terra
mas só mar por entre a espuma pousem.

Mas aqui tem a estátua que prefiro,
e em que mais arte pus, ou mais amor eu dei:
foi num dia de Verão, quando ascendia
minh'alma às formas puras, que sonhei
este Hermes jovem. Como é belo. Veja.

[Trad. JS]

CONSTANTIN CAVAFY
'DEUS ABANDONA ANTÓNIO'



Quando à meia-noite, de súbito escutares
um tiaso invisível a passar
com músicas esplêndidas, com vozes -
a tua Fortuna que se rende, as tuas obras
que malograram, os planos de tua vida
que se mostraram mentiroso, não os chores em vão.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
diz adeus à Alexandria que de ti se afasta.
E sobretudo não te iludas, alegando
que tudo foi um sonho, que teu ouvido te enganou.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
como cumpre a quem mereceu uma cidade assim,
acerca-te com firmeza da janela
e ouve com emoção, mas ouve sem
as lamentações ou as súplicas dos fracos,
num derradeiro prazer, os sons que passam,
os raros instrumentos do místico tiaso,
e dia adeus à Alexandria que ora perdes.

[Trad. JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'O DEUS ABANDONA MARCO ANTÓNIO'



Quando subitamente se ouve à meia-noite
um cortejo que invisível passa
com sublimes músicas e cânticos -
a tua fortuna que desiste, as tuas obras
que falharam, os planos de uma vida inteira
tornados nada -, não vale chorar.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente
diz-lhe adeus, à Alexandria que de ti se afasta.
Acima de tudo não te iludas, nunca digas que foi
apenas sonho, um engano, quanto ouviste:
não re agarres a tão vãs esperanças.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente,
e como é próprio de quem, como tu, era digno de uma tal cidade,
aproxima-te firme da janela,
e escuta emocionado, mas não
com lamentos e súplicas cobardes,
escuta, derradeira alegria tua, os sons que passam,
os sublimes instrumentos do cortejo místico,
e diz adeus, adeus à Alexandria que perdeste.

[Trd. JS]

CONSTANTIN CAVAFY
'IDOS DE MARÇO'



Deves sempre temer as grandezas, oh alma.
Se não consegues dominar as ambições
que tenhas, cuida então, com dúvida e prudência,
de as tolerar. E quanto mais adiante fores,
mais cuidadosa, mais inquisitiva sê.

Quando por fim ao ápice chegares, César,
assim logrando estatura de homem celebrado,
acautela-te inda mais ao saíres à rua,
vistoso potentado com o seu cortejo;
se por acaso da turba aproximar-se
algum Artemidoro que traz uma carta
e te diz apressado: "Lê sem mais demora,
são coisas capitais que te interessam muito",
não deixes de parar; não deixes de adiar
qualquer negócio ou discussão; não deixes de afastar
aqueles que se vêm prosternar para saudar-te
(tu os verás mais tarde); o Senado também
espera: trata, pois, de conhecer depressa
as momentosas novas que traz Artemidoro.

[Trad. JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'OS IDOS DE MARÇO'



Teme as grandezas, ó minh'alma.
E se não és capaz de triunfar das tuas
ambições, dá-te a elas hesitantemente
e com cautela. E quanto mais avances,
mas cuidadosa e atenta deves ser.

E quando ao máximo chegares, enfim César,
tendo assumido a imagem de um grande homem célebre,
sê cautelosa então quando saíres à rua,
conspícua autoridade e a sua corte,
se por acaso salta dentre a multidão um Artemidoro
que a ti chega com uma mensagem,
e que ofegante diz «Lê quanto antes, é
grave matéria que te diz respeito» -
- não deixes de parar. Não deixes de adiar
seja o que for. Não deixes de afastar
quantos te aclamam, te saúdam (terás sempre
tempo de os receber mais tarde). Até o Senado
pode esperar por ti. Lê imediatamente
os graves avisos desse Artemidoro.

[Trad. JS]

CONSTANTIN CAVAFY
'CÍRIOS'



Os dias do futuro se erguem à nossa frente
como círios acesos, em fileira -
círios dourados, cálidos e vivos.

Os dias idos ficaram para trás,
triste fila de círios apagados;
os mais próximos ainda fumaceiam,
círios pensos e frios e derretidos.

Não quero vê-los, que me aflige o seu aspecto.
Aflige-me lembrar a sua luz de outrora.
Contemplo, adiante, os meus círios acesos.

Não quero olhar para trás e, trêmulo, notar
como se alonga depressa a fileira sombria,
como crescem depressa os círios pagados.

[Trad.JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'CÍRIOS'



Os dias do futuro estão em frente a nós
como uma longa fila de círios acesos.
Dourados, quentes, vivos, pequeninos círios.
Os dias do passado ficam para trás,
uma triste fileira de apagados círios:
ainda fumegantes os mais próximos,
os outros frios, derretidos, recurvados.
Não quero vê-los: essa imagem fere-me -
dói-me lembrar a luz que foi a deles.
Olho na frente os meus círios acesos.
Não quero voltar-me e ver, horrorizado,
quão rápida se amplia a fila escura,
como se multiplicam os que se apagaram

[Trad. JS]

sábado, outubro 08, 2005

CONSTANTIN CAVAFY
'PRECE'



Um marujo o abismo do mar guardou consigo.
Sem de nada saber, a mãe coloca um círio

aceso diante da Virgem, um longo círio,
para que volte logo, a salvo dos perigos.

No bramido dos ventos põe o seu ouvido;
mas enquanto ela reza e faz o seu pedido,

sabe o ícone a escutá-la, grave, com pesar,
que o filho que ela espera nunca há-de voltar.

[Trad.José Paulo Paes]

CONSTANTIN CAVAFY
'A SÚPLICA'



O mar tragou de um golpe o marinheiro.
Entretanto, a mãe vai acender, insciente,

no altar da Virgem uma vela benta,
para que ele volte com bom tempo, e bem.

E atenta fica ao assobiar do vento.
E, enquanto reza, a Imagem que conhece

toda a verdade, escuta triste a prece,
sabendo que seu filho não regressa.

[Trad. Jorge de Sena]

CONSTANTIN CAVAFY
'MORTE DO IMPERADOR TÁCITO'




O pobre imperador adoeceu.
Tácito não aguentou, de velho,
as canseiras da guerra.
Ei-lo prostrado em seu acampamento.
Tão longe! Em Tiana, mísera cidade.

A Campânia recorda, bem amada,
e a vila que lá tem com seu jardim:
de há seis meses atrás a calma vida.
E, agonizante, rosna maldições
contra o Senado vil e detestado.

[Trad. Jorge de Sena]

sábado, setembro 24, 2005

CONSTANTIN CAVAFY
'À ESPERA DOS BÁRBAROS'



O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão-de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergue tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhes
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nome e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.