sexta-feira, novembro 18, 2005


Aki
Outono




もの置けばそこに生まれぬ秋の蔭  虚子

mono okeba soko ni umarenu aki no kage

Em qualquer lugar
Onde se deixem as coisas,
As sombras do outono.

Kyoshi





今朝秋や見入る鏡に親の顔  鬼城

kesa aki ya miiru kagami ni oya no kao

Ao mirar o espelho,
Na primeira manhã de outono,
O rosto do pai.

Kijô





この秋は何で年よる雲に鳥  芭蕉

kono aki wa nan de toshiyoru kumo ni tori

Neste outono,
Como estou ficando velho!
Pássaros nas nuvens.

Bashô





行秋の草にかくるゝ流れかな  白雄

yuku aki no kusa ni kakururu nagare kana

O pequeno córrego
Se esconde sob o capim —
O outono fenece.

Shirao





飯時や戸口に秋の入日影  樗良

meshidoki ya toguchi ni aki no irihi kage

Hora do almoço.
Pela porta, com os raios de sol,
As sombras do outono.

Chora





枯枝に烏の止まれけり秋の暮  芭蕉

kare-eda ni karasu no tomare keri aki no kure

Num galho seco,
Um corvo pousado.
Tarde de outono.

Bashô





此道や行く人なしに秋のくれ  芭蕉

kono michi ya yuku hito nashi ni aki no kure

Por este caminho,
Ninguém mais passa —
Tarde de outono.

Bashô





父母のことのみ思ふ秋の暮  蕪村

chichi haha no koto nomi omou aki no kure

Penso apenas
Em meu pai e minha mãe —
Tarde de outono.

Buson





名月や行つても行つてもよその空  千代女

meigetsu ya ittemo ittemo yoso no sora

Lua cheia!
Por mais que caminhe,
O céu é de outro lugar.

Chiyo-jo





名月を取つてくれろと泣く子かな  一茶

meigetsu wo totte kurero to naku ko kana

Lua cheia.
Me dá, me dá!
Chora a criança.

Issa





名月や池をめぐりて夜もすがら  芭蕉

meigetsu ya ike o megurite yo mo sugara

Ah, lua de outono —
Andando em volta do lago
Passei toda a noite.

Bashô





名月や座に美しき顔もなし  芭蕉

meigetsu ya za ni utsukushiki kao mo nashi

Ah, lua cheia!
Nem mesmo um rosto bonito
Entre os presentes...

Bashô





禪寺の門を出づれば星月夜  子規

zendera no mon o izureba hoshizukiyo

Ao deixar o portão
Do templo zen,
Uma noite estrelada!

Shiki





荒海や佐渡によこたふ天の川  芭蕉

araumi ya sado ni yokotau ama no gawa

Mar agitado —
Estende-se até a ilha de Sado
A Via-láctea.

Bashô





淋しさや花火のあとの星の飛ぶ  子規

sabishisa ya hanabi no ato no hoshi no tobu

Solidão.
Após a queima de fogos,
Uma estrela cadente.

Shiki





あかあかと日はつれなくも秋の風  芭蕉

aka aka to hi wa tsurenaku mo aki no kaze

Apesar do sol
Ardendo sem compaixão,
O vento de outono.

Bashô





淋しさに飯をくふ也秋の風  一茶

sabishisa ni meshi o kû nari aki no kaze

Em solidão,
Como minha comida —
Vento de outono.

Issa





馬の尾に佛性ありや秋の風  子規

uma no o ni busshô ari ya aki no kaze

No rabo do cavalo
Também há natureza búdica?
Vento de outono.

Shiki





稲妻にさとらぬ人の貴さよ  芭蕉

inazuma ni satoranu hito no tôtosa yo

Venerável
É quem não se ilumina
Ao ver o relâmpago!

Bashô





稲妻やきのふは東今日は西  其角

inazuma ya kinô wa higashi kyô wa nishi

Trovão —
Ontem a leste,
Hoje a oeste.

Kikaku





しらつゆに浄土まいりのけいこかな  一茶

shiratsuyu ni jôdo mairi no keiko kana

No orvalho branco
Encontrarás o caminho
da Terra Pura!

Issa





物の音ひとりたふるゝ案山子かな  凡兆

mono no oto hitori taururu kakashi kana

Algo faz barulho —
Cai sozinho, sem ajuda,
O espantalho.

Bonchô





案山子から案山子へ渡る雀哉  小波

kakashi kara kakashi e wataru suzume kana

De espantalho
Para espantalho,
Voam os pardais.

Sazanami





よの中は稲かる頃か草の庵  芭蕉

yo no naka wa ine karu koro ka kusa no io

Minha casa de sapê —
Será tempo de colheita
No mundo lá fora?

Bashô





我が聲の風になりけり菌狩  子規

waga koe no kaze ni nari keri kinokogari

Minha voz
Torna-se vento —
Coleta de cogumelos.

Shiki





七夕の歌書く人に寄り添ひぬ  虚子

tanabata no uta kaku hito ni yorisoinu

A moça rodeia
O poeta que escreve versos —
Festival das Estrelas.

Kyoshi





古犬や先に立つなり墓参り  一茶

furu-inu ya saki ni tatsu nari haka-mairi

O velho cão,
Na visita ao cemitério,
Segue à frente.

Issa





雁よ雁いくつのとしから旅をした  一茶



kari yo kari ikutsu no toshi kara tabi o shita

Oh gansos selvagens!
Desde que tempo
Tendes viajado?

Issa





木啄の柱をたたく住いかな  芭蕉

kitsutsuki no hashira o tataku sumai kana

Ah, esta casa —
Pica-paus vêm bicar
Sua madeira.

Bashô





蜻蛉やとりつきかねし草の上  芭蕉

tombô ya toritsuki kaneshi kusa no ue

A libélula,
Sem conseguir se agarrar
A uma folha de capim.

Bashô





行く水におのが影追ふ蜻蛉かな  千代女

yuku mizu ni ono ga kage ou tombo kana

Sobre o curso d'água,
Perseguindo sua sombra,
Desliza a libélula.

Chiyo-jo





我が影の壁にしむ夜やきりぎりす  蓼太

waga kage no kabe ni shimu yo ya kirigirisu

De noite minha sombra
Embebe-se na parede —
O grilo cricrila

Ryôta





庵の夜や棚さがしするきりぎりす  一茶

io no yo ya tana sagashi suru kirigirisu

Noite na cabana —
Um grilo na prateleira
Procura por algo.

Issa





むざんやな甲の下のきりぎりす  芭蕉

muzan ya na kabuto no shita no kirigirisu

Que tocante!
Debaixo da armadura
Sai um grilo.

Bashô





とんぼうや村なつかしき壁の色  蕪村

tombô ya mura natsukashiki kabe no iro

Libélulas!
Dá saudades da terra natal
A cor deste muro.

Buson





道のべの木槿は馬に喰われけり  芭蕉

michinobe no mukuge wa uma ni kuwarekeri

A flor
Da beira da estrada
Foi comida pelo cavalo.

Bashô





柿喰へば鐘が鳴るなり法隆寺  子規

kaki kueba kane ga naru nari hôryûji

Ao comer caqui
Ouve-se um sino tocar —
Templo Hôryûji.

Shiki





晩鐘や寺の熟柿の落つる音  子規

banshô ya tera no jukushi no otsuru oto

Sinos do anoitecer —
O barulho de um caqui maduro
Caindo no templo.

Shiki





山くれて紅葉の朱をうばひけり  蕪村

yama kurete momiji no ake o ubaikeri

O morro escurece
E das folhas do bordo
O escarlate rouba...

Buson





柳ちり菜屑流るゝ小川かな  子規

yanagi chiri nakuzu nagaruru ogawa kana

O salgueiro se desfolha.
Restos de verduras
Descendo o regato.

Shiki





朝顔の地を這ひわる空家哉  子規

asagao no chi o haiwataru akiya kana

As campânulas
Se espalham pelo terreno —
Casa abandonada.

Shiki

quinta-feira, novembro 17, 2005

CONSTANTIN CAVAFY

CONSTANTIN CAVAFY
1863/1933 Alexandria

Traduções
de
Jorge de Sena
( 90 E MAIS QUATRO POEMAS, Centelha/Fora do Texto, Coimbra, 1986)
e
de
José Paulo Paes
( POEMAS, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1982 )
*
Imagens
GERHARD RICHTER

quarta-feira, novembro 16, 2005

CONSTANTIN CAVAFY
'PERGUNTAVA PELA QUALIDADE'



Do escritório em que lhe haviam dado emprego
insignificante e pobremente pago
( umas oito libras por mês, incluindo comissões)
saiu, quando a tarefa o curvara sobre a escrivaninha;
saiu eram sete horas, devagar vagueou
pelas ruas fora. Belo e atraente,
como que dele se exalava uma aura
de plenitude sensual completa.
Um mês antes, fizera vinte e nove.

Ia passando pelas ruas, pobres becos,
a caminho da casa em que morava.

Cruzara em frente a uma pequena loja,
destas que vendem tudo quanto há
de imitações baratas, coisas ordinárias,
quando lá viu um vulto, viu um rosto,
que o prenderam, e entrou, fingindo querer
saber de uns lenços de cores vivas.

Numa voz embargada perguntava pela qualidade
e o preço dos lenços, numa voz que o desejo
quase esvaía de tremor, extinta.
E as respostas vinham de igual tom, alheadas,
numa voz baixa e que se velava
de um consentir subentendido.

Continuaram sempre a falar dos lenços -
mas fito único era que as mãos se tocassem
nos lenços, e que as faces se aproximassem,
e os membros se roçassem como por acaso:
a momentânea graça do contacto físico.

Depressa e em segredo, para que o lojista
sentado lá no fundo, não se apercebesse.

[Trado. JS]

CONSTANTIN CAVAFY
'NO 25º ANO DE SUA VIDA'



Regularmente vai a essa taverna
onde, no mês passado, os dois se haviam conhecido.
Perguntou, mas não souberam dizer-lhe coisa alguma.
Pelas palavras deles, compreendeu que se tratava
de um desconhecido qualquer, um entre muitos
jovens desconhecidos e suspeitos
que por ali costumavam aparecer.
Vai à taverna, porém, regularmente, toda noite,
e, lá sentado, põe-se a olhar a porta;
vigia a entrada até ficar exausto.
Talvez chegue. Hoje quem sabe vem.

Durante três semanas faz o mesmo.
A sua mente enfermou-se de lascívia.
Os beijos na boca lhe ficaram.
Padece, toda a sua carne, de um desejo ardente.
Quer unir-se a ele uma vez mais.

Tenta, bem entendido, não trair-se.
Mas por vezes isso já quase nem lhe importa.
Aliás, bem sabendo ao que se expunha,
tomou a decisão. Não é nada improvável uma vida assim
levá-lo a um escândalo fatal.

[Trad. JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'UM JOVEM ARTISTA DA PALAVRA - 24 ANOS DE IDADE'



Trabalha agora como possas, cérebro. -
Um prazer incompleta o dilacera.
É enervante a sua condição.
Beija o rosto do amado todo dia,
suas mãos lhe acariciam os membros admiráveis.
Jamais na vida amou assim, com tal
paixão. Porém lhe falta a bela plenitude
do amor, a plenitude que há sempre de existir
entre dois amantes com desejos intensos.

(Não têm, os dois, igual pendor para os prazeres anómalos,
que só a um domina por inteiro).

E ele se irrita, e ele se atormenta.
Além do mais, está desempregado; e isso conta.
Umas pequenas somas de dinheiro
a duras penas consegue ( quase as tem
de mendigar, por vezes ) e vive pobremente.
Beija os lábios adorados; sobre
o corpo admirável - que, só agora entende,
apenas consente - se deleita.
E depois bebe e fuma, fuma e bebe,
e pelos cafés arrasta, o dia todo,
com tédio arrasta a dor da sua formosura. -
Trabalha agora como possas, cérebro.

[Trad. JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'UM JOVEM ESCRITOR AOS VINTE E QUATRO ANOS'



Trabalha agora como queiras, cérebro. -
Pois que o consome o prazer incompleto,
é enervante a situação em que este jovem vive.
Todos os dias beija o rosto amado,
as mãos perdidas nos incríveis membros.
Nunca antes desejara com tão grande
paixão. Mas o perfeito consumar-se
do amor lhe falta; falta o consumar-se
que só de um mútuo anseio intenso vem.

(Não se dão ambos igualmente ao prazer proibido;
apenas sem reservas o domina ele).

Assim se gasta em nervosismo extremo.
E está desempregado - o que também conta.
Pequenas somas de dinheiro pede
emprestadas com dificuldade (quase
às vezes as mendiga), e finge que se aguenta.
Os adorados lábios beija; e sobre
esse corpo magnífico - entendendo bem
como ele só consente - colhe o seu prazer.
E bebe e fuma, e bebe e fuma;
e arrasta os dias de café em café,
doridamente arrasta a languidez do vulto -
trabalha agora como queiras, cérebro.

[Trad. JS]

CONSTANTIN CAVAFY
'PARA AMON, QUE MORREU AOS 29 ANOS, EM 610'



Rafael, pedem que escrevas alguns versos.
Escreve-os, então, para epitáfio do poeta Amon.
Podes muito bem compô-lo. Algo polido, de bom-tom.
És o mais indicado. Escreve-os de tal modo
que quadrem ao poeta: Amon foi um dos nossos.

Dos seus poemas decerto hás de falar -
mas também da sua beleza singular,
a sua delicada beleza que amávamos.

Sempre belo e musical é o teu grego. Todavia,
faz-se mister tua inteira artesania desta vez.
Soe em língua estrangeira a nossa dor, o nosso amor.
Transfunde em língua estrangeira o teu sentimento egípcio.

Rafael, escreve os versos de tal modo
que eles tenham, sabes, de nossa vida um pouco,
que o ritmo, que cada frase, façam supor
que sobre alexandrino escreve um alexandrino.

[Trad. JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'PARA AMÓNIO QUE MORREU EM 610,
AOS VINTE E NOVE ANOS'



Pedem-te alguns versos, Rafael,
para epitáfio do poeta Amónio.
Escreve pois - tu sabes - com teu gosto e arte.
Tu és o indicado para escrever bem
de Amónio, o poeta, que um dos nossos foi.

Falarás, é claro, da obra dele. Mas
diz também da beleza que era a sua
beleza delicada que nós tanto amámos.

O teu grego é sempre puro e musical.
Agora, porém, toda a mestria é pouca.
Numa estrangeira língua a nossa dor e o nosso amor infundam.
Transpõe nosso sentir de egípcios para língua grega.

Escreverás, ó Rafael, teus versos,
de modo a que contenham, sabes, algo da nossa vida,
de maneira a que o ritmo, cada frase, afirmem:
um Alexandrino canta de outro Alexandrino.

[Trad. JS]

CONSTANTIN CAVAFY
'A CIDADE'



Dizes: "Eu vou para outras terras, eu vou para outro mar.
Hão de existir outras cidades melhores do que esta.
De todo o esforço feito - estava escrito - nada resta
e sepultado qual um morto eu tenho o coração.
Até quando vai minha alma ficar nesta inacção?
Onde quer que eu olhe, para onde quer que eu volte a vista,
a negra ruína de minha vida é o que se avista,
eu que anos a fio cuidei de a estragar e dissipar."

Não acharás novas terras, tampouco novo mar.
A cidade há de seguir-te. As ruas por onde andares
serão as mesmas. Os mesmos os bairros, os andares
das casas onde irão encanecer os teus cabelos.
A esta cidade sempre chegarás. Os teus anhelos
são vãos, de para outra encontrar um barco ou um caminho.
A vida, pois, que dissipaste aqui, neste cantinho
do mundo, no mundo inteiro é que a foste dissipar."

[Trad. JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'OS CAVALOS DE AQUILES'



Ao verem Pátroclo morrer tão jovem,
em todo o sei vigor e bravura sem par,
os cavalos de Aquiles puseram-se a chorar.
A imortal natureza deles se insurgia
contra o feito de morte a que assistia.
Sacudiam as cabeças, as longas crinas agitavam,
e, pisoteando o chão com os cascos, pranteavam
Pátroclo, a quem ali percebiam inerme, aniquilado -
cadáver ora desprezível - o espírito evolado -
indefeso - sem sopro de vivente -
exilado, da vida, no grande Nada novamente.

O pranto dos seus cavalos imortais
fez pena a Zeus. "No casamento de Peleu",
disse, "irreflectido foi o gesto meu;
inditosos cavalos, melhor fora, creio,
não vos ter dado. Que faríeis lá no meio
da mísera humanidade que é joguete da Sorte?
Vós, a quem a velhice não ronda nem espreita morte,
infortúnios fugazes padeceis. Às suas
dores os homens vos prendem". - Mas as lágrimas suas
pelo eterno, sem remissão jamais,
infortúnio da morte vertiam os dois nobres animais.

[Trad. JPP]

domingo, outubro 30, 2005

CONSTANTIN CAVAFY
'CESARIÃO'



Para verificar uma data, bem como
para distrair-me, ontem fiquei eu
até tarde da noite a ler um tomo
de antigas inscrições da época dos Ptolomeus.
As loas e as lisonjas, sempre ingentes,
são todas parecidas. Toda a gente
é forte, brilhante, gloriosa, clemente,
e toda empresa é magna, sapiente.
De igual modo, as mulheres da estirpe, essas várias
Berenices e Cleópatras, todas extraordinárias.

Depois de haver conseguido verificar a data,
ia largar o livro quando uma pequena
menção sem importância ao rei Cesarião
prendeu-m a atenção repentinamente.

Ah, chegaste com a indefinida
graça tua. Na História, só algumas
e escassas linhas há a teu respeito,
pelo que minha mente te afeiçoou com liberdade.
Foi sensível e belo que te fiz.
Ao teu rosto minha arte concedeu
uma beleza encantadora, como em sonho.
Tão plenamente imaginei-te
ontem, noite alta, ao apagar-se
minha lâmpada - deixei e quis que se apagasse -
que me atrevi a pensar entravas no meu quarto;
pareceu-me ver-te à minha frente qual serias
em meio à Alexandria conquistada,
pálido e fatigado, ideal na tua dor,
ainda esperando que de ti se apiedassem
os perversos - que cochichavam "Césares demais".

[Trad. JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'CESÁRION'



Em parte na verdade para passar o tempo,
em parte a relembrar as descrições da época,
peguei, na outra noite, e comecei a ler
uma colectânea de inscrições ptolomaicas.
Mas os louvores pomposos, as filáucias,
repetem-se de glória para glória.
Todos famosos, fortes, de altos feitos.
Quanto inventaram foi sublime sempre.
E as damas da família todas dignas
da fama de Berenices e de Cleópatras.

Assim já recordado dessa época,
largado houvera o livro, se uma breve
menção, sem importância, ao Rei Cesárion
ma não tivesse espertado o olhar...

Eis que apareces com o teu encanto
in definido! E na História poucas
linhas se encontram sobre ti. Por isso,
mais livremente posso imaginar-te.
E te imagino belo e tão sensível!
Dou, em meus versos, ao teu rosto um ar
de sonhadora e fina simpatia.
E tão inteiramente te imagino,
que ontem, tarde da noite, quando a luz
se me apagava - e eu deixei que sim -,
pensei que tu entravas no meu quarto,
e em frente a mim paravas, como terás sido
na grande Alexandria conquistada:
exausto e pálido, e na dor excelso,
mas tendo ainda esperança na piedade deles
que murmuravam - servis - «Césares de mais».

[Trad. JS]

CONSTANTIN CAVAFY
'REINOS ALEXANDRINOS'



Ei-los reunidos, os alexandrinos,
para verem os filhos de Cleópatra:
Cesarião e seus dois irmãos menores,
Ptolomeu e Alexandre. Era a primeira
vez que os faziam ir até o Ginásio
a fim de serem proclamados reis,
em meio a esplendoroso desfile militar.

Começaram por Alexandre, dito
rei da Arménia e da Média, assim como dos Partas.
Disseram, em seguida, Ptolomeu
rei da Cilicia, da Síria e também da Fenícia.
Cesarião estava de pé, um pouco à frente,
trajando um manto de seda cor-de-rosa,
um ramalhete de jacintos sobre o peito,
no cinto um duplo fio de safiras e ametistas,
as sandálias atadas por cordões
brancos e bordados de pequenas pérolas róseas.
A ele proclamaram mais que os dois menores:
atribuíram-lhe o título de Rei dos Reis.

Bem sabiam os alexandrinos,
que eram palavras só, encenação.
Mas o dia estava poético, estival,
com o céu de um azul muito lavado;
mas o Ginásio Alexandrino era um
prodigioso e artístico triunfo.
Os cortesãos excediam no seu luxo.
Cesarião era só graça e formosura
(o filho de Cleópatra, sangue dos Lágidas).
Por isso, os alexandrinos acorriam à festa,
entusiasmavam-se, lançavam vivas
em grego, em egípcio, em hebraico alguns, fascinados
com a beleza toda do espectáculo -
malgrado soubessem o quanto valia aquilo,
que palavras ocas eram aqueles reinos.

[Trad.JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'REIS DE ALEXANDRIA'


Os de Alexandria em multidão vieram
para ver os filhos de Cleópatra,
Cesárion, e os irmãozinhos de Cesárion,
Alexandre e Ptolomeu, que pela primeira
vez eram levados ao Estádio,
e para serem proclamados reis,
numa grande parada militar magnífica.

Alexandre - a esse proclamavam Rei da
Arménia, e da Média, e dos Partos;
Ptolomeu - proclamavam Rei
da Cilícia, da Síria, e da Fenícia.
Cesárion estava um pouco mais à frente,
vestido de seda cor-de-rosa,
no peito uma grinalda de jacintos,
na cinta duas ordens de ametistas e safiras,
as sandálias presas por fitas brancas
bordadas a rosadas pérolas.
O título dado a este era melhor que os dos outros:
proclamavam-no o Rei dos Reis.

Claro que os de Alexandria bem sabiam
que tudo não passava de palavras e cenário.

Mas o dia era quente e poético,
o céu azul, de um transparente azul,
o Estádio de Alexandria um triunfo
de harmoniosa concepção artística,
a magnificência dos cortesãos extraordinária,
Cesárion todo ele graça e beleza
(filho de Cleópatra, sangue da estirpe de Lago) -
e os de Alexandrinos congregavam-se na cerimónia,
entusiasmavam-se, e começaram a aclamar
em grego, em egípcio, alguns mesmo em hebraico,
encantados pelo soberbo espectáculo:
embora soubessem muito bem o que valia aquilo,
que vãs palavras eram essas Coroas.

[Trad. JS]

CONSTANTIN CAVAFY
'ÍTACA'



Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se a tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez no porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egipto peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Um bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas ao caminho
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

[Trad. JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'ÍTACA'



Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria - nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho até ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.

[Trad. JS]

CONSTANTIN CAVAFY
'ESCULTOR DE TIANA'



Conforme ireis ouvir, eu não sou principiante.
Muita pedra passou-me pelas mãos.
Em minha pátria, Tiana, muitos são
que me conhecem. Estátuas em profusão
os senadores têm-me encomendado.

Já vou mostrar
algumas delas. Contemplai esta Réia vetusta,
cheia de fortaleza, venerável, augusta.
Vede Pompeu. Vede Mário, Emílio Paulo,
Cipião o Africano, todos lado a lado,
imagens tão fiéis quanto a um artesão
é dado fazer. Pátrocolo (que devo retocar).
Cesarião ali está, um pouco adiante,
junto ao bloco de mármore amarelado.

Uma estátua de Poseidon agora tenho em mente.
Preocupa-me nessa obra, principalmente,
como esculpir os cavalos, difícil questão.
É mister que seus corpos e seus cascos
revelem claramente, tão ligeiros eles são,
voar sobre as águas, não pisar o chão.

Mas eis, de minhas obras, a que amo realmente,
aquela em que pus maior empenho e maior emoção;
ao ascender meu espírito ao mundo do Ideal,
num certo dia do mais cálido verão,
sonhou esta imagem do jovem Hermes imortal.

[Trad. JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'O ESCULTOR DE TIANA'



Não sou principiante. Ouvido terá já
falar de mim. Lidei com muita pedra.
E em Tiana, minha terra, sou estimado.
Os senadores daqui não poucas encomendas
me vão fazendo... Peças como as que
lhe vou mostrar. Repare nesta Reia,
venerável, potente, como antiga. Veja
esta cabeça de Pompeu. Note estes Mário,
Cipião-o-Africano e Paulo Emílio.
E todos parecidos quanto eu soube.
E este Patroclo, que retocarei.
Aquele além, ao pé desses pedaços
de amarelo mármore, é Cesáriom.

Ultimamente, tenho-me entregado
a conceber Poseídon. Os cavalos
são o que mais me ocupa. Modelados
com tal leveza os corpos, que suas patas
não possam parecer que pisam terra
mas só mar por entre a espuma pousem.

Mas aqui tem a estátua que prefiro,
e em que mais arte pus, ou mais amor eu dei:
foi num dia de Verão, quando ascendia
minh'alma às formas puras, que sonhei
este Hermes jovem. Como é belo. Veja.

[Trad. JS]

CONSTANTIN CAVAFY
'DEUS ABANDONA ANTÓNIO'



Quando à meia-noite, de súbito escutares
um tiaso invisível a passar
com músicas esplêndidas, com vozes -
a tua Fortuna que se rende, as tuas obras
que malograram, os planos de tua vida
que se mostraram mentiroso, não os chores em vão.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
diz adeus à Alexandria que de ti se afasta.
E sobretudo não te iludas, alegando
que tudo foi um sonho, que teu ouvido te enganou.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
como cumpre a quem mereceu uma cidade assim,
acerca-te com firmeza da janela
e ouve com emoção, mas ouve sem
as lamentações ou as súplicas dos fracos,
num derradeiro prazer, os sons que passam,
os raros instrumentos do místico tiaso,
e dia adeus à Alexandria que ora perdes.

[Trad. JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'O DEUS ABANDONA MARCO ANTÓNIO'



Quando subitamente se ouve à meia-noite
um cortejo que invisível passa
com sublimes músicas e cânticos -
a tua fortuna que desiste, as tuas obras
que falharam, os planos de uma vida inteira
tornados nada -, não vale chorar.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente
diz-lhe adeus, à Alexandria que de ti se afasta.
Acima de tudo não te iludas, nunca digas que foi
apenas sonho, um engano, quanto ouviste:
não re agarres a tão vãs esperanças.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente,
e como é próprio de quem, como tu, era digno de uma tal cidade,
aproxima-te firme da janela,
e escuta emocionado, mas não
com lamentos e súplicas cobardes,
escuta, derradeira alegria tua, os sons que passam,
os sublimes instrumentos do cortejo místico,
e diz adeus, adeus à Alexandria que perdeste.

[Trd. JS]