sábado, junho 16, 2007

Pedro Calapez

ANTÒNIO RAMOS ROSA

Uma pausa, não de plumas, mas elástica


1

Uma pausa, não de plumas, mas elástica,
que demorasse em si a paz ardente
e o ardor profundo de uma alta instância.
Que fosse o esquecimento na folhagem
e a espessa transparência da matéria.
O pulso pronunciaria a amplitude
do instante inocente. A obra acender-se-ia
na inteligência dos signos mais aéreos.

2

A inadvertência pode ser um prelúdio carnal
na volúvel leitura de quem adormeceu.
O sono dá ao sangue o ócio e as cores do enxofre.
Por uma forma ausente a matéria ramifica-se
na insolência branda de umas ruínas perfeitas.
Um aroma rebenta da axila negra de um animal de vidro.
Como um veleiro de fogo uma cabeleira ondula.
A garganta do mar atira os seus pássaros de espuma.
Uma rapariga de pedra caminha entre os arbustos de fogo.
É a abundâcia da origem e o seu orvalho azul.
São as armas vegetais sobre as janelas da terra.
É a frescura do vidro nas cintilantes sílabas.

3

Na justa monotonia do meio-dia
oiço o prodígio do repouso e a paixão adormecida.
O concêntrico sopro imobiliza-se. É uma lâmpada
de pedra fulgurante. Tudo é nítido mas ausente.
O mundo todo cabe no olvido e o olvido é transparência
de um denso torso que a nostalgia acende.
No silêncio sinto numa só cadência
a vociferação e o tumulto das pálpebras e dos astros.
Pelas veias o fogo da cal é branco e liso
e a mais remota substância culmina num rumor redondo.

In: A Rosa Esquerda (1991)

Pedro Calapez

ABTÓNIO RAMOS ROSA

Que cor ó telhados de miséria


Que cor ó telhados de miséria
onde nasci
de tanta pequenez de tão humildes ovos
de nenhum querer
a que horas nasceram as estrelas que
um dia foram
a que horas nasci?


Não vim embarcado não me encontrei
na rua
não nos vimos
não nos beijamos
nunca parti


Não sei que idade tenho


Quando havia antes um antigamente
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo


Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seca e pálido
quando havia antes um caminho


Não houve nunca amigos nem, pureza
Nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar


A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar


Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas


Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos álacres do silêncio


Um mar de espuma e alegria obscura
um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa


Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insetos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
O mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o ver e as lâminas solares

PEDRO CALAPEZ

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Poema dum Funcionário Cansado


A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

terça-feira, maio 01, 2007

NA MORTE DE UM POETA - Eduardo Pitta

Só hoje, lendo as dedicatórias que antecedem Antecedentes Criminais, criteriosa antologia com que Amadeu Baptista assinala 25 anos de obra em livro, só hoje, dizia, soube da morte de Luís de Miranda Rocha (1947-2007), poeta, ensaísta, crítico e jornalista. O facto pareceu-me tão espantoso que tive de ir conferir ao Google, por intermédio do qual li a notícia do semanário Sol. A morte inesperada ocorreu no passado 28 de Março, em Coimbra. Dissidente do jornalismo profissional, Miranda Rocha trocou o Diário de Lisboa, onde trabalhou durante quase vinte anos, pelo sossego da província. Dito de outro modo, trocou a visibilidade que um jornal (então) influente lhe dava pela paz de espírito. Retirado em Mira, e mais tarde em Coimbra, cidade onde chegou a leccionar Teoria da Comunicação, nunca deixou de escrever e publicar. A partir de certa altura perdi a conta aos livros, mas não exagero se disser que são praticamente três dezenas de títulos, entre poesia (a parte de leão) e ensaio. Uma coisa sei: importa reunir essas colectâneas dispersas, publicadas a partir de 1968, sempre à margem do circuito mainstream. Os ritmos gaguejantes que privilegiava, em resultado de uma pontuação agramatical e alógica, fazem da poesia que deixou um corpo de tensa organicidade. Como diz num poema de Os Arredores do Mar, Os Subúrbios da Noite, de 1993, «A noite altera a voz que ouve o som que canta». Conheci-o em 1976, pouco depois de chegar a Portugal, e fui acompanhando o seu percurso de outsider assumido. É verdade que nos últimos anos as notícias eram raras, mas não estava nada à espera de ter uma notícia destas.

EDUARDO PITTA in: Da Literatura - http://daliteratura.blogspot.com/

segunda-feira, abril 30, 2007

Luís de Miranda Rocha - de NOCTURNOS LITORAIS

I

1.

O som do mundo o som de mais a percepção imenso o ouve
o ouve imenso o som do mundo a percepção esse tumulto
tumulto esse agreste triste que crescendo vaga informe
informe vaga essa noção o seu rumor intenso alastra

Essa noção de que excessivo o som do mundo é som de mais
é som de mais acumulado a percepção a luz perturba
a luz perturba o som disforme disturba a luz perturba
disturba o som alto que cresce tumulto intenso o som do mar

2.

Do mundo ouve o canto ouve anda no ar aéreo anda
azul rumor crescente vaga vespertina que evolui
em que sentido o entrevê o entreouve imenso avança
na sua força impetuosa crescendo contra o coração

O mundo vê o mundo anda esse rumor de que luz tensa
de que luz viva de que luz nova um rumor cresce forte no ar
forte que ouve essa luz vê essa luz canta nos ouvidos
do mundo a vida renovada o seu som cresce e faz crescer

3.

Ouvendo o mundo o dia o grande mar durante
o som da luz a percepção de que diurno
rumor enorme vasto imenso que no ar
no som do ar na luz do ar crescendo canta

O som a luz isso que ouve isso que vê
isso que ouvê anda no ar difusa vaga
tumulto que anda no ar informe incerto
o som metal a luz metal denso alumínio

4.

Obscuro o agreste que nos brilhos intenso
desse mar vespertino tão real irreal
de metal tão intenso o seu tenso rumor
na aérea solar percepção que cintila

5.

Vespertina apatia tão real irreal
desse mar que metal nos seus brilhos cintila
ilumínio furor excessivo demente
percepção indemente gravemente indemente
percepção de que o brilho que cintila rutila

Tão grave tão agudo tão suave e agreste
vespertino cintila esse mar de metal

6.

Tantos centros de que margens só há margens
e margens de que centros só no mar
só há centros da terra só há margens
do mar a mais incerta percepção
do mar que litoral vaga deriva

7.

Isso alucina de excessivo isso estonteia
a percepção do mundo imagem desvario

A percepção do mundo grave à tarde triste
esse rumor que vespertino exasperado

Esse rumor exasperado esse clamor
isso de excesso esse rumor isso acumula

Isso de excesso demasiado essa imagem

8.

Isso que paira vespertina percepção
o mar ondula devagar o mar ondeia

Isso que paira o mar ondeia isso no ar
essa visão do mundo à tarde flutua

Isso que paira flutua isso que vê
anda no ar sobre as imagens e desliza

Isso que paira isso desliza isso desanda
isso desloca-se devagar para que tende

Isso que paira essa que vaga luz difunde
luminações cintilações que se propagam

Isso que paira são semoventes que cintilam
rutilações escuramente luminosas

9.

Do dia tem que percepção residual o dia ouve
do luminoso dia ainda o som que canta vespertino
a sua luz grave escurece vaga que desce enfraquecida
sombria vaga entristecida desses motores o estertor

É obscuro iluminoso ouve-o vê-o que desliza
vê-o e ouve que decai a sua grave imagem triste
a propensão dessa imagem vespertina inclinada
para a noite propensão tendência para o declínio

10.

Ouvindo o mar o mundo a vida
a percepção ondeia ondula

Ou flutua ágil ligeiro
esse sentido flutua

Ondula viva a percepção
instável muda e evolui

Em que sentido isso evolui
em que sentido incerto ondeia

Anda no ar o seu som rouco
ouve-o no ar tumulto vivo

Ondula ondeia esse tumulto
crescente vaga esse rumor

...

II

22.

Tão nocturno no ar esse mar que ressoa
tão tumulto crescendo esse som que do mar
toda a noite no mundo o ouvindo durante
esse som os ouvidos a cabeça devasta
tão informe do mar esse som que flui
percepção de que anda tão incerto alterado

23.

Mais de noite ressoa o que ouve esse mar
o que anda no ar que desliza acelera
um rumor um furor que resvala desanda
num suave clamor decrescendo o agreste

Mais de noite ressoa que o ouve no ar
o que ouve esse mar que ondula ondeia
percepção sensação devagar que flui
de que agreste suave que no ar flutua

24.

Flutua no ar a cabeça o sentido
da vida na cabeça do mundo na cabeça

Flutua no ar sobre as águas do mar
flutua flui levíssimo ligeiro

Flutua no ar semovente e ondula
tão veloz devagar tão enorme o imenso

Flutua no ar do coração inetenso
o sentido intenso o senso de que

Se desliza resvala

25.

Que informe deflagra grave incerto rumoroso
clamor vivo incendeio ilumínio que a imagem
deflagra na cabeça deflagra o coração
na cabeça deflagra surda luz que desvario

Desvario que devasta o som do mundo irregular
a percepção do som do mundo numeroso vasto ondeio
a percepção da existência esse rumor esse ruído
a percepção desse ruído que entrevê que entreouve

Devasta o mundo a vida vasta o coração os seus motores
numeroso o seu rumor devastador a existência
como um furor ouvido grave canta por dentro da cabeça
canta por dentro mais intenso esse rumor esse clamor
vasto por dentro que ressoa interno forte nos ouvidos

Atinge forte o coração os centros todos atordoa

26.

A percepção disso de que isso exaspera
isso o incerto à vaga luz isso é informe

Isso é informe formação que se desloca
isso no ar muda de forma em movimento

De que informe percepção isso depende
vertiginoso que desliza

Que resvala devagar

27.

Ouve-se canta esse rumor vasto suave deflagra
ouve-se canta é um rumor é um clamor agreste e rouco
ouve-se canta é um estertor ouve-se dentro na cabeça

Esse rumor esse clamor devastador imenso e grave
anda no mundo anda no ar ouve-o forte é um furor
é um excesso grave de mais cantando triste nos ouvidos

28.

Isso que ouve esse rumor isso alucina
isso que ouve é percepção quase demente

Isso que ouve cresce por dentro vê-o crescer
a percepção disso que cresce é excessiva

Isso que ouve tende a crescer cada vez mais
a percepção disso que cresce em que sentido

Isso que ouve esse rumor de cordas tensas
de arcos sobre as cordas tensas evolui

Isso que ouve esse rumor é um clamor
é um rumor devastador do mundo triste

Isso que ouve o mundo triste isso ressoa
interno dentro a percepção grave devasta

Isso que ouve isso devasta esse rumor
esse clamor interior interno dentro

Isso que ouve esse som surdo isso em surdina
isso ensurdece isso aturde isso atordoa

A cabeça ou ouvidos a cabeça

29.

Ouve-se canta esse rumor vasto suave deflagra
ouve-se canta é um rumor é um clamor agreste rouco
ouve-se canta um estertor ouve-se canta na cabeça

Esse rumor esse clamor devastador imenso e grave
anda no mundo anda no ar ouve-o forte é um furor
é um excesso grave de mais cantando triste nos ouvidos

30.

A noite cresce a vida dentro a viva noite ouve-a crescer
ouve-a crescer ouve que canta intensa mais veloz ligeira
a vida a noite que acelera a vida a noite acelerada
a vida dentro a noite dentro interna canta interior

A noite canta luminosa o seu deslize arterial
intensa luz forte ilumínio do seu som há que percepção
que visão há que entrevisão no som que ouve que entrevê
no som que ouve o que entrevê o que entreouve a noite canta

31.

Nocturno o som do mundo ouve
escuro intenso a sua voz
o som do mundo grave
o som do mundo tanto

Rumor imenso vasto
azul escuro intenso
o som do mundo a noite
rumor azul descanta
furor clamor triste

32.

Ganindo o ouve agudo grave que lancina
de que sentido tão intenso esse rumor
é percepção já irreal de que a unidade
do real a sua imagem devastou-se
fracturou-se essa imagem dividiu-se
distendeu-se o seu rumor a percepção

Ouvê-se mal que deflagra esse rumor
é um furor é um clamor que ensurdece
os ouvidos que devasta é um ruído
num crescendo que alastra prolifera
que domina que entristece que oprime
irreal a cabeça o coração

Fragmentos de Nocturnos Litorais
Edição: O Mirante
Santarém, 2003

segunda-feira, abril 02, 2007

Luís de Miranda Rocha - LivrosÚltimo

FINGIMENTO E ESCRITA
Fernando Pessoa numa perspectiva da comunicação e dos meios
Editora O MIRANTE, Santarém
Setembro de 2006


A bibliografia sobre Fernando Pessoa é hoje tão vasta que quase se tem a tentação de dizer que sobre ele e a sua obra já tudo foi dito. E sobre os poemas «Autopsicografia» e «Isto» (sobretudo o primeiro) já tanto se disse que parece não haver muito mais a dizer. Não é essa no entanto a ideia em que aqui se assenta e de que aqui se parte para uma leitura nova e diferente destes poemas e da obra de Pessoa (de que tais poemas são a chave para toda a interpretação), numa perspectiva da comunicação e dos meios. Na perspectiva da comunicação, já muito se escreveu. Na perspectiva dos meios, não, pelo menos para além de algumas aproximações, mais nos domínios do psicológico e do literário do que do comunicacional. No caso, o meio central em questão é a escrita. E é disso que se trata nos textos deste livro. uma revisão crítica das leituras de «Autopsicografia»; uma leitura nova (comunicacional e mediológica) deste poema; outra do poema "Isto"; uma análise da frase "A minha pátria é a língua portuguesa"; outro sobre a máquina de escrever e as alterações comunicacionais por ele produzidas; outro ainda sobre um poema de Dylam Thomas, onde é da escrita que se trata, e dos seus poderes (aquém e além das evidências de que o que está em questão é o problema da guerra ou da paz). "Fingimento e Escrita, Fernando Pessoa numa perspectiva da Comunicação e dos Meios", situando-se, embora, na linha dos estudos pessoanos, pretende-se, aí, algo de diferente e novo, renovador, inovador,alterador.

Luís de Miranda Rocha

"Isto", uma leitura

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sinto ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço,
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está o pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que o não é.
Sentir? Sinta quem lê.
(1)

É o poema "Isto" e aparece em diversos manuais escolares e antologias logo a seguir a "Autopsicografia". E não é por acaso, decerto. Talvez principalmente por duas razões.
Uma é que, na ordenação temporal do poemário de Pessoa ortónimo, os dois poemas estão muito próximos, a uma distância de cerca de dois anos e na última fase da vida do autor.
Outra é que, talvez por isso, é mais entrevisível a relação entre os dois poemas no que respeita ao tema, aos temas.
Mais importante do que a ligação entre os dois poemas é o carácter explicativo que se pode atribuir a "Isto" relativamente a "Autopsicografia". Explicativo e/ou justificativo. Complementar e/ou suplementar, também, decerto. Mas dizer complementar ou suplementar é significar pouco, face à íntima relação (temático-assumptiva, estilística, até formal) entre os dois poemas. E ainda que sem grande rigor, porque no domínio das impressões, poderíamos falar também do mesmo tom de voz, de fala, de discurso.
O próprio título, "Isto", parece indicativo a tal respeito. Isto é um pronome demonstrativo neutro, aplicado a um conjunto indeterminado de objectos, de situações. Indica, porém, a proximidade do que vagamente (neutralmente, digamos, ou indiscriminada e distanciadamente) designa.
No caso, "Isto" parece apontar aquilo de que em "Autopsicografia" se trata: o fingimento, a escrita que o medeia e processa, o que resulta que o leitor fez desse texto, dessa elaboração organizada (e elaborada organização) da escrita, percepção significativa e sentidual do que se diz, melhor, escreve, que do que lê faz o leitor ( e que redundante dizê-lo, pode não corresponder ao que era intenção do poeta ou escritor dizer, significar, e, mais do que isso, o drama que isso (essa não-correspondência) representa, para aquele que escreve, que na escrita como fala, faz ouvir a sua voz (digamos assim, embora seja, não fala, sim escrita, o que aqui está em questão).
Parece ser, e talvez seja, uma resposta a objecções críticas ou apenas uma explicação/justificação pessoal perante tais objecções críticas ou perante críticos e objectores - assinalados nas marcas de pessoa e número da forma verbal inicial "Dizem".
Em questão, o fingimento e/ou mentira. Já vimos que fingir, em rigor, não é mentir. Em rigor, isto é, para além ou um pouco acima do senso comum. A nível do senso comum, porém, fingir e mentir, se não se pode dizer que se trate propriamente do mesmo, também não são actos ou atitudes muito distanciadas.
"Minto", portanto, nõ está aqui só para rimar com "sinto", mas porque tem categoria e dignidade de argumento, e tê-lo em conta é reconhecer-lhe essa categoria e essa dignidade.
Questão menor. Questão maior é o que se segue: a sumária mas lapidar explicação/justificação que aí se faz de "tudo o que escrevo".
Não é pretender desmentir que seja de fingimento que se trata. Mas também não é confirmar que se trate de fingimento. Porque é, mas não é, ou não é bem como parece ser, e pode até ser muito diferente do que parece.
O que parece é o que "dizem" - fingimento ou mentira. Mas fingimento ou mentira é uma coisa, no entendimento ou na perspectiva dos que "dizem", e outra na perspectiva ou no entendimento do que escreve. A mensagem não é ou não quer dizer o mesmo para o que escreve e para o que lê, o emissor e o receptor. E isso aquém do que também mais do que provavelmente não será o mesmo ou não quererá dizer o mesmo de receptor para receptor - questão, aliás, que aqui não se levanta, ou à qual o emissor é indiferente: a recepção é plural, inúmera e anónima, e, pessoalizado ou individualizado, só o emissor, por oposição distintiva (e poderíamos dizer criticamente ostensiva) em relação aos demais.
Eis-nos, portanto, plenamente dentro da questão comunicacional, a mesma de "Autopsicografia".
...

in: Fingimento e Escrita
(Fernando Pessoa numa perspectiva da comunicação e dos meios)

domingo, abril 01, 2007

Luís de Miranda Rocha



Luís de Miranda Rocha nasceu em Mira, em Agosto de 1947 e faleceu, em Coimbra, a 28 de Março de 2007. Escritor, jornalista, professor. Publicou mais de duas dezenas de livros e cadernos e a sua presença consta em mais de duas dezenas de colectivos, nos domínios da poesia e do ensaísmo crítico. Desde os anos 60, colaborou em diversos jornais e revistas. Foi sócio da Associação Portuguesa de Escritores e membro da Associação de Críticos Literários, as quais representou em júris de múltiplos Prémios Literários. Jornalista, desde 1973, foi profissional durante dez anos em Lisboa (Diário de Lisboa e outras publicações. Fez, desde 1983 a Voz de Mira e desde 1998 a revista cultural Gandarena, dos quais foi director-adjunto. Como professor, esteve a leccionar no secundário, passou pelo ensino superior e politécnico, e pelo técnico e profissinal no ITAP, em Coimbra. Foi formador, pelo Cenjor, na área do Jornalismo. Frequentou o Instituto de Estudos Sociais e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre os fins dos anos sessenta e princípios de setenta.
Licenciou-se, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Estudos Portugueses. Frequentou ainda um mestrado nesta área, na Universidade de Aveiro, tendo feito o ano curricular.
Viveu em Viseu, Lisboa e Coimbra.
Poemas seus estão traduzidos em Castelhano.

Sobre um dos seus últimos livros, A luz da noite, o som do mundo, editado,em 2001, pela Nova Imbondeiro,livro este assaz importante no panorama da nossa poesia contemporânea, escreveu Cristina Mello, como posfácio a este livro, um longo texto de interpretação dos seus vários segmentos de leitura, do qual se transcreve um breve parágrafo.

« Numa tentativa de compreender o imaginário do canto grave de A luz da noite, o som do mundo, canto (fala,voz) que recusa as amenidades, as harmonias eufónicas, mas também a sua tradução semântica, ocorre que nele se alude, de um modo muito subtil (quase como uma natural decorrência dos significantes verbais), a um mundo em que não há lugar para a harmonia, para a unidade»

sexta-feira, março 30, 2007

Rui Aguiar

Imagem

Luís de Miranda Rocha

A LUZ DA NOITE, O SOM DO MUNDO

1
Há um rumor, na voz que ouve, o mundo canta
Na voz que fala, o mundo ouve, o som do mundo
A luz da noite, incerta vaga, escuramente
A luz da noite, o som do mundo, azul escuro

Há um rumor, intenso grave, ouvido canta
O som do mundo, que no ar, o alterado
Esse rumor, imenso tão, suave grave

Ouvindo-o, esse rumor
Nocturno tão, grave ruído

2
Que de noite ressoa, mais intenso durante
Todo o som de que o mundo, e mais forte descanta
Obscuro intenso, alumínio ilumínio
Tanto a vida do mundo, percepção alterada
Rumor que ouvindo-o, que do mar que no ar
Percepção de que anda, que resvala desliza
Decrescente decai, declínio crescente
Alterado intenso, nos ouvidos ressoa

3
Que descanta, isso tanto, tão ouvido
Obscuro, na cabeça, arterial

Tão ouvido, que descanta, que altera
Desaltera, gravemente, esse ruído

Que altera, desaltera, que devasta
Indemente, gravemente, enrouquecido

Que devasta, tão ouvido, esse rumor
Esse som, que descanta, que nocturno

4
Anoitece o intenso quando ouvido da noite
Grevemente no ar o rumor o ruído
Da desordem do caos gravemente crescendo
O ouvido durante o que ouve o tremor
Do que ouve entreouve o sentido que treme
Anoitece o intenso excessivo intenso
O sentido de mais de que o caos que se forma
Anoitece entristece o sentido que cresce
Rumor que evolui do sentido no censo
Que furor que tremor do sentido oscila

5
Ouvindo-o indemente que ruído rumor
Tão agreste descanta esse som alterado

Em furor alterado o resíduo crescente
Ouvindo-o indemente azul grave obscuro

Ilumínio alumínio azul grave e intenso

...

10
O alastro indemente de que senso desliza
Alumíneo rumor grevemente veloz
De que senso o rumor progressivo que cresce
Alumínio intenso que intensivo decai

Numeroso inúmero
O clamor de que
Um furor que desvive
O seu som tão intenso

Um furor que descanta
Que desvive alterado
O som grave do mundo
Que oscila resvala
Que resvala flui

11
Indomínio crescente do sentido que anda
Alterado rumor inclínio que cresce
Na vida e no mundo na noite do mundo
No som de que avida do mundo descanta

Toda a vida que ouve nesse som que descanta
O sentido que cresce devagar e ligeiro

12
Escura vaga, azul a luz, da noite cresce
Por dentro ouvido, gravemente, o seu rumor
Intenso alto, luminoso que ilumínio
Alumínio, que ressoa, triste grave

Que descanta, como canta, tão incerto
Esse som, devastado nos ouvidos
Que ruído, que do mundo, quanto ouve
Tão nocturno, ilumínio, deflagra

13
O tão agreste grave, o som que anda
No ar durante a noite, o som do mundo
No som grave da noite, o mundo ouve
No som do mundo a noite, o mar demente

14
A noite, que do mundo, o som descanta
O canto, que do mundo, a luz depende

A noite, percepção, de que no ar
O mar, o som do mar, que no ar anda

A terra, percepção, de que terrestre
O som, do mundo ouve, intenso canta

A luz, tão irreal, demente que
No ar, celeste tão, grave cintila

15
O som do mundo, anda no ar, tumulto azul, imenso grave
O som do mundo, o som da noite, a luz da noite, azul escuro

A luz da noite, estrito intenso, a luz o seu, tenso alumínio

...

20
Tão grave o som do mundo canta
Intensamente nos ouvidos
Esse rumor esse furor
Esse clamor devastador
Ruído tão nocturno triste
Crescendo tão veloz alastra

21
O som do mundo ouve a noite canta
Um som tão grave triste nos ouvidos
O som do mundo tanto tão intenso
Um som imenso tanto um som nocturno

22
O que ouve no ar o que anda no ar
Esse som de que o mundo
De que a vida descanta
Esse errado rumor
Esse som obscuro

23
Ouvindo-o, esse furor, do mundo anda
No ar, e nos ouvidos, na cabeça
Descanta, grave tarde, quando a noite
Descanta, grave quando, o fim do dia

Ouvindo-o, que descanta, esse furor
Intenso, na cabeça, nos ouvidos
No ar, crepuscular, na formação
Da noite, esse furor do mundo vivo

24
Esse som veemente, tão demente indemente
Na cabeça a bater, a bater a bater
Nos ouvidos por dentro, da cabeça intenso
O que ouve tão grave, tão agudo o que ouve
O que ouve esse som, excessivo devasta
O demente indemente, devastado que canta
O que ouve esse som, o que canta descanta

25
Azul escuro grave a noite canta
O brilho frio tenso das estrelas
A pouca luz escura densa vê
Nocturno triste o som do mundo ouve

...

50
O que ouve esse vasto
Rumor grande que anda
Tão intenso no ar
Tão intenso ligeiro
O som grave do mundo

O que ouve de onde
No que ouve entrevê
De onde vem para onde
De onde a vida que som
Que sentido desliza

51
O que ouve persistindo esse rumor
Em furor veemente se transforma
Sensação que crescente percepção
Do que ouve persistindo tão incerto

52
Esse alastro luminoso da cabeça
Dos ouvidos tão veloz ao coração
Que ouvido que rumor do que ouvido
Que pode dentro escuramente luminoso
Agreste grave canta o som do mundo

53
Esse furor, agreste que, agudo grave
Na cabeça, indemente, o som descanta
O som do mundo, intensa vaga, vasta informe
O som do mundo, alegre triste, que alastra

Que se ouve, nos ouvidos, obscuro
Alumínio, ilumínio, densidade
Excessiva, que perturba, que obstrui
A incerta, percepção, irreal que

54
Radiante, obscuro, que descanta
Alumínio, ilumínio, se o vê
Se o ouve, que desliza, que resvala
Tão demente, indemente, que ruído

55
Ouvido como a noite o mundo anda
Que canta que descanta que nocturno
Intenso dentro o ouve é que rumor
Furor claro escuro grave intenso

...

60
Deflagra que luz
Tão agudo tão grave
Tão imenso tão forte
Luminoso alumínio
Tão real irreal

Que transluz que rumor
Tão suave e agreste
Na cabeça por dentro
Nos ouvidos interno

61
Vaga luz alumínea
Que pequeno ilumíneo
Que se ouve se canta
Que se ouve por dentro

Que se ouve por dentro
Ilumíneo rumor
Tão intenso que ouve
Que ouvido se altera

Que ouvido se altera
Vaga luz que ouvida
Que se ouve que anda
Que desliza ligeiro

62
Que ligeiro desliza, o tão grave rumor
Dos ruídos externos, o resíduo crescente
Do ardente ilumínio,que do som deflagra
Pontual gradual, tão intenso crescendo
O descanto do mundo, na cabeça ressoa

63
Que percepção, que se desloca,
Que formação, de que imagem
Tão vaga tão, incerta nula
Desgrave tão, e alterada
Desalterado, crescimento
Ondeio que, ondula o ar

64
A voz que canta, a sua fala, o som da voz, o som que canta, é obscuro.
O som que ouve esse rumor, do mundo ouve, a noite cresce.
É um clamor, cada vez mais, extenso e alto.
É um furor, devastador, intenso e nulo.

65
Dirigi-se esta fala a que ouvidos
O som o que da voz aí desliza
Diz pouco esse dizer é tão escuro
Nas margens faz-se ouvir incertamente
Dos centros de que vem de que resvala
Não tem há muito não origem nem
Há muito que não tem nenhum destino
Descentro que deriva desvaria
O sentido que tem é senso informe
A fala que se ouve aí descanta
Descanto progressivo que se ouve
O canto o grave que no som se diz

66
A voz que fala, a quem a ouve, o som durante
Esse rumor a noite canta, o som ruído
Devastador, imenso cresce, o mundo anda
A vida anda, essa deriva, a vaga incerta
Nocturno tão, esse som grave, o mundo triste

A percepção, que litoral, de noite o mar
Imenso o som, que grave canta, o mundo ouvido
A percepção, de que a vida, sensação
A sensação, de que no ar, o som de que


Luís de Miranda Rocha
in: A LUZ DA NOITE, O SOM DO MUNDO
Novo Imbondeiro,2001

quarta-feira, março 28, 2007

Eduardo Batarda

Ruy Belo

E Tudo Era Possível

Na minha juventude antes de ter saído
de casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido.
Chegava o mês de Maio, em tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido.
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída.
Quando foi isso? Eu próprio não sei dizer.
Só sei que tinha o poder de uma criança,
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer...

Canção do Lavrador

Meus versos lavro-os ao rubro
nesta página de terra
que abro em lábios. Descubro-
-lhe a voz que no fundo encerra
Os versos que faço sou-os
a relha rasga-me a vida
e amarra os sonhos de voos
que eu tinha à terra ferida
Poema que mais que escrevo
devo-te em vida. No húmus
a rego simples eu levo
os meus desvairados rumos
Mas mais que poema meu
(que eu nunca soube palavra)
isto que dispo sou eu
Poeta não escrevas lavra

Meditação Anciã

Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus

A Mão no Arado

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará
Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição

É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente


ADVENTO DO ANJO

Ontem e anteontem já passados
arredondemos os olhos à volta
daquela antiga realidade
alfa ómega primeira e última
que sempre diante na fronte trouxemos
Circundemo-la de um colar de palavras
sem pálpebras pobres pálidas de rosto
roubadas às esquinas eivadas
de arestas agrestes pontiagudas
Percamos palavras como folhas
perdem no Outono as árvores, varridos
pelo contínuo apascentar de cuidados
Já se vão areando as praias de amanhã
desde ontem a morte morreu
E vamos e banhemo-nos no mar
que o anjo forte cúpula do tempo
se sente vir anunciar e fechar

Ruy Belo

Os balcões sucessivos sobre o rio

Os balcões sucessivos sobre o rio
as tesouras de poda nas roseiras
a sonolência lânguida e perversa
esse todo coerente e sobre ele apenas
a abóbada da minha perfeição
é esse o meu convite à desistência
a pena menos pública do mundo nos
lagos das finas flores dos sabugueiros
onde a mulher soltava os cabelos
pra que neles se prendesse o cheiro a erva
Ela tinha um aspecto inesperado
vinha com o vestido cor magenta nos
braços que lhe cresceram sobre a terra
movia-se ao andar como uma barca
Importa-me é o curso do dia e da noite
Vou andar um bocado nos caminhos
é pela hora em que não há ninguém
nudez desprevenida dos meus dias
mas só de noite desço até ao mar após
as sete horas da tarde hora crepuscular
os cheiros confortáveis e antigos
imagens dum lirismo fraudulento
um conforto algum tanto apreensivo
coisas que desde a infância a construíam
Mudo de opinião continuamente
espero o teu regresso pela tarde
e cuidadosamente velo a minha cólera
A vida é para mim pesar de pálpebras
leitura de discursos no outono
na casa abandonada e submetida à chuva
Regresso afinal aos próprios hábitos
sorrisos de mulheres sobre a areia
sou fiel à tristeza e pouco mais
e meto então um lenço num dos bolsos
que cheira ao perfume dos pinheiros
Ave de alarme sou deixem-me só
sou um contemporâneo assisto a tudo
os sinos vesperais nos dias de verão
o cão que passa numa encruzilhada
um cântaro que racha inexplicavelmente
confundido no hálito do mar
a minha saudação aos infantes do medo
crianças que iniciam o andar
Espero por alguém espero pelo sol
pla doçura estival da laranjeira
ando pelos caminhos muito tempo
e passo pelas portas devassadas pelos ventos
em cujos gonzos sopram agonias
E espero de novo a floração da primavera
Não quero nada quero estar presente sobre
as dunas do começo dos pinhais
nesse mundo de medos e animais
onde abri os meus olhos para a luz de agora
E perco todo eu em contriçães
ó terra branca e carnal e triste
as minhas madrugadas do sargaço
abertas nos bocejos da neblina
quando o tempo é suave e chega em dunas
à sensibilidade das narinas
nas horas generosas da maré



Ruy Belo
Despeço-me da Terra da Alegria
Todos os Poemas
Assírio & Alvim
2000

Eduardo Batarda

Ruy Belo

O Jogo do Chinquilho

Renasce neste largo a minha infância
a minha vida tem aqui nova nascente
e jorra de repente com o ímpeto do início
O tempo não passou ou só a consciência
que provisoriamente sinto de voltar alguns anos atrás
a sensação que sei de reflectir sobre esse tempo
de ser um espectador de sucessivos sucedidos dias
de não viver apenas não viver sem sequer saber que vivo
num espaço demarcado onde as coisas e os homens
eram tanto que eram simplesmente
só essa consciência e sensação me fazem suspeitar
de que passou o tempo que nunca passou
O adro o fim da tarde o jogo do chinquilho
o ruído das malhas os paulitos
o sol poente sobre si redondo como simples
malha atirada por alguém pelo espaço do dia
e prestes a cair no mar como nas tábuas
o gesto perdulário e impensado de jogar
a malha como quem num gesto joga a vida
as silhuetas hirtas dos que assistem
de boné ou barrete na cabeça e mãos nos bolsos
tudo se passa aqui ali há trinta e cinco anos
como se aqui ninguém houvesse envelhecido
nem sofrido ou morrido ou suportado
toda a imensa fome requerida para produzir um rico
como se aqui ninguém tivesse demandado
longe de aqui o seu país noutros países
Tudo é o mesmo adro a mesma tarde o mesmo jogo
Até este café onde sentado olho e penso por olhar
é afinal o mesmo onde bebi a meias com meu pai
a primeira cerveja uma cerveja vinda
através do calor do dia de verão
nesse cesto de vime nesse poço mergulhado
É o mesmo o sabor que sempre sinto nesta boca
há muitos anos já mordendo o vinho o pão a vida
o sabor das mulheres das raparigas
inacessíveis sempre como um absoluto
sempre impossível tido no entanto por possível
o sabor da derrota ou o sabor da terra
sensível dia a dia nos meus dedos
e um dia susceptível de me encher a boca para sempre
Envelheci eu sei e só ganhei
o que perdi. Sou de uma adulta idade
E entretanto tudo a noite rodeou e o jogo acabou
e pelo céu do tempo houve um homem que passou
ou uma certa malha arremessada por acaso à vida
e viva na precária trajectória antes de caída.

Ruy Belo, Transporte no Tempo, Editorial Presença