domingo, outubro 30, 2005

CONSTANTIN CAVAFY
'IDOS DE MARÇO'



Deves sempre temer as grandezas, oh alma.
Se não consegues dominar as ambições
que tenhas, cuida então, com dúvida e prudência,
de as tolerar. E quanto mais adiante fores,
mais cuidadosa, mais inquisitiva sê.

Quando por fim ao ápice chegares, César,
assim logrando estatura de homem celebrado,
acautela-te inda mais ao saíres à rua,
vistoso potentado com o seu cortejo;
se por acaso da turba aproximar-se
algum Artemidoro que traz uma carta
e te diz apressado: "Lê sem mais demora,
são coisas capitais que te interessam muito",
não deixes de parar; não deixes de adiar
qualquer negócio ou discussão; não deixes de afastar
aqueles que se vêm prosternar para saudar-te
(tu os verás mais tarde); o Senado também
espera: trata, pois, de conhecer depressa
as momentosas novas que traz Artemidoro.

[Trad. JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'OS IDOS DE MARÇO'



Teme as grandezas, ó minh'alma.
E se não és capaz de triunfar das tuas
ambições, dá-te a elas hesitantemente
e com cautela. E quanto mais avances,
mas cuidadosa e atenta deves ser.

E quando ao máximo chegares, enfim César,
tendo assumido a imagem de um grande homem célebre,
sê cautelosa então quando saíres à rua,
conspícua autoridade e a sua corte,
se por acaso salta dentre a multidão um Artemidoro
que a ti chega com uma mensagem,
e que ofegante diz «Lê quanto antes, é
grave matéria que te diz respeito» -
- não deixes de parar. Não deixes de adiar
seja o que for. Não deixes de afastar
quantos te aclamam, te saúdam (terás sempre
tempo de os receber mais tarde). Até o Senado
pode esperar por ti. Lê imediatamente
os graves avisos desse Artemidoro.

[Trad. JS]

CONSTANTIN CAVAFY
'CÍRIOS'



Os dias do futuro se erguem à nossa frente
como círios acesos, em fileira -
círios dourados, cálidos e vivos.

Os dias idos ficaram para trás,
triste fila de círios apagados;
os mais próximos ainda fumaceiam,
círios pensos e frios e derretidos.

Não quero vê-los, que me aflige o seu aspecto.
Aflige-me lembrar a sua luz de outrora.
Contemplo, adiante, os meus círios acesos.

Não quero olhar para trás e, trêmulo, notar
como se alonga depressa a fileira sombria,
como crescem depressa os círios pagados.

[Trad.JPP]

CONSTANTIN CAVAFY
'CÍRIOS'



Os dias do futuro estão em frente a nós
como uma longa fila de círios acesos.
Dourados, quentes, vivos, pequeninos círios.
Os dias do passado ficam para trás,
uma triste fileira de apagados círios:
ainda fumegantes os mais próximos,
os outros frios, derretidos, recurvados.
Não quero vê-los: essa imagem fere-me -
dói-me lembrar a luz que foi a deles.
Olho na frente os meus círios acesos.
Não quero voltar-me e ver, horrorizado,
quão rápida se amplia a fila escura,
como se multiplicam os que se apagaram

[Trad. JS]

sábado, outubro 08, 2005

CONSTANTIN CAVAFY
'PRECE'



Um marujo o abismo do mar guardou consigo.
Sem de nada saber, a mãe coloca um círio

aceso diante da Virgem, um longo círio,
para que volte logo, a salvo dos perigos.

No bramido dos ventos põe o seu ouvido;
mas enquanto ela reza e faz o seu pedido,

sabe o ícone a escutá-la, grave, com pesar,
que o filho que ela espera nunca há-de voltar.

[Trad.José Paulo Paes]

CONSTANTIN CAVAFY
'A SÚPLICA'



O mar tragou de um golpe o marinheiro.
Entretanto, a mãe vai acender, insciente,

no altar da Virgem uma vela benta,
para que ele volte com bom tempo, e bem.

E atenta fica ao assobiar do vento.
E, enquanto reza, a Imagem que conhece

toda a verdade, escuta triste a prece,
sabendo que seu filho não regressa.

[Trad. Jorge de Sena]

CONSTANTIN CAVAFY
'MORTE DO IMPERADOR TÁCITO'




O pobre imperador adoeceu.
Tácito não aguentou, de velho,
as canseiras da guerra.
Ei-lo prostrado em seu acampamento.
Tão longe! Em Tiana, mísera cidade.

A Campânia recorda, bem amada,
e a vila que lá tem com seu jardim:
de há seis meses atrás a calma vida.
E, agonizante, rosna maldições
contra o Senado vil e detestado.

[Trad. Jorge de Sena]

sábado, setembro 24, 2005

CONSTANTIN CAVAFY
'À ESPERA DOS BÁRBAROS'



O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão-de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergue tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhes
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nome e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.