sábado, dezembro 17, 2011

Tomas Tranströmer
Prémio Nobel de Literatura de 2011

ANTOLOGIA MÍNIMA



O poeta sueco Tomas Tranströmer foi homenageado em Estocolmo, antes da cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Literatura de 2011.
A tradição obriga a que o laureado de cada ano faça uma conferência na Academia Sueca, porém o facto do Poeta sofrer de limitações na fala e na mobilidade (resultado de um acidente vascular sofrido há mais de duas décadas) obrigou desta vez a uma alteração do programa.

O acto, homenagem à qual assistiram o Poeta (em cadeira de rodas) e a sua esposa Mónica, contou com a presença de coro de câmara El Gustaf Sjykvist, varios actores e o quinteto de câmara de Uppsala, os quais ofereceram diversas versões cantadas da poesia de Tranströmer. A voz do próprio poeta ouviu-se através de velhas gravações das suas obras e o poema «Soledad», foi dito em cinco idiomas pelos artistas presentes.

Seguidamente, além da leitura de uma dezena de poemas de Tranströmer provenientes de diversos livros seus, o acto também contou com a interpretação de duas passagens musicais, uma de Franz Liszt e outra de Franz Schubert, dois dos autores favoritos do literato, que é também um apaixonado pela Música. Por sua vez, o coro de câmara Gustaf Sjyvist interpretou versões musicadas de outros textos do poeta como El viaje y Música lenta.

O secretário permanente da Academia Sueca, Peter Englund, traçou un elogio de Tranströmer, afirmando entre outras coisas que o poeta tinha merecido o Nobel de Literatura porque "através de suas imagens translúcidas e condensadas criava o acesso a uma nova realidade". Englund disse também: "Querido Tomas, é impossível sentir-me insignificante depois de ter lido a sua poesia".

Quando foi anunciado o Prémio, em princípios de Outubro, a Academia tinha dito também que "a maior parte da precisa obra poética de Tranströmer está impregnada de concreção e de metáforas expressivas", e que a sua poesia mais recente "tende para um formato ainda más reduzido e a um grau ainda maior de concisão".



Tranströmer é considerado habitualmente o maior poeta sueco vivo. Nacido em Estocolmo a 15 de Abril de 1931, a sua obra, maioritariamente escrita em verso livre e inspirada nas suas viagens pelo mundo e em experiencias pessoais e metafísicas, ela se instala entre o modernismo, o expressionismo e o surrealismo. A sua poesia está traduzida em mais de cinquenta idiomas.

Em Portugal , estão traduzidos alguns poemas soltos de Tranströmer – que aqui vamos editar – por Luís Costa, João Luís Barreto Guimarães e Vasco Graça Moura.

Psicólogo de profissão, filho de uma professora e de um jornalista, o poeta trabalhou na sua juventude com deliquentes, incapacitados, pessoas condenadas à prisão e adictos diversos.

Publicou os seus primeiros poemas ainda muito jovem, aos 23 anos, quando era estudante.

A partir de meados dos anos 60, o seu trabalho repartiu-se entre a escrita e a psicologia. Como literato obteve numerosos galardões, como o Premio Internacional Neustadt de Literatura, o Germany`s Petrarch Prize, o Swedish Academy`s Nordic Prize, entre outros.

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LISBOA
No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.
“Mas aqui!”, disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,
“aqui estão políticos”. Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.
Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
“será verdade ou só um sonho meu?”

Tradução de Vasco Graça Moura
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vasco_Gra%C3%A7a_Moura

Instalação "Svayambh" de Anish Kapoor

LISBOA
No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas subidas.
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!

"Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho como um afectado
"aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.

A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos depois, perguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei ?

Tradução de Luís Costa
http://www.triplov.com/poesia/Luis-Costa/index.htm

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HISTÓRIAS DE MARINHEIROS (1954)

Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.

Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.

(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.

Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).



A ÁRVORE E A NUVEM (1962)

Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.



DESDE A MONTANHA (1962)

Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.

«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.

Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.



PÁSSAROS MATINAIS (1966)

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

(Tradução de João Luís Barreto Guimarães)






Void #13 Anish Kapoor


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O penhasco da águia
Por de trás do vidro do terrário
os répteis
estranhamente imóveis.

Uma mulher pendura roupa
em silêncio.
a morte é uma calmaria.

Pelo fundo da terra
a minha alma escorrega
silenciosa como um cometa.

*

Fachadas
I
Ao fim do caminho vejo o poder
Lembra uma cebola
com rostos sobrepostos
que vão caindo uns após outros…

II
Os teatros esvaziam-se. É meia-noite.
Letreiros flamejam nas fachadas.
O mistério das cartas sem resposta
afunda-se por entre a fria cintilação.

*

Novembro
Quando o esbirro se aborrece, torna-se perigoso.
O céu constrói-se, em chamas.
Sinais de pancadas ouvem-se de cela em cela.
E do solo, coberto de neve, o espaço jorra.
Algumas pedras brilham como luas cheias.

*

A neve cai
Os funerais aproximam-se
cada vez mais densos
como placas da rua
quando nos aproximamos de alguma cidade.

O olhar de mil pessoas
na terra das longas sombras.

Uma ponte constrói-se
lentamente
sempre a direito no espaço

*

Assinaturas
Sou obrigado a atravessar
a soleira escura.
Uma sala.
O documento branco cintila
entre muitas sombras, que se movimentam.
Todas o querem assinar.

Até que a luz me alcança
e dobra o espaço.


Nove haikus da Prisão de Menores Hallby (1959)

1
Joga-se futebol
súbita confusão – a bola
voa por cima do muro

2
Eles enfurecem-se
para que o tempo passe
mais rápido

3
Vida mal soletrada
a beleza continua a viver
como tatuagem

4
Quando o fugitivo foi apanhado
tinha os bolsos
cheios de cogumelos

5
O retinir das oficinas
e os pesados passos das torres
perturbam o bosque

6
O portão abre-se
no pátio do instituto
há agora um novo ano

7
A s luzes do muro acendem-se
o aviador nocturno
vê uma mancha de luz irreal

8
Noite – um TIR passa
os sonhos dos
reclusos tremem

9
O rapaz bebe leite
e dorme na sua cela,
uma mãe de pedra

(Selecção e tradução de Luís Costa)




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O Casal


Apagam a luz e o globo branco brilha
um instante e, depois, dissolve-se, como um comprimido
num copo de escuridão. Depois, aumenta.
As paredes do hotel disparam para a escuridão do céu.

Os seus movimentos tornaram-se mais suaves e dormem,
mas os seus pensamentos mais secretos começam a encontrar-se
como duas cores que se encontram e escorrem juntas
sobre o papel molhado de uma pintura de um menino de escola.

Está escuro e silencioso. A cidade, contudo, aproximou-se
esta noite. Com as suas janelas desligadas. Vieram casas.
Mantêm-se juntas e muito perto, esperando,
uma multidão de gente de rostos brancos.

(Tradução do inglês de Maria Catela)



*


Depois de uma Morte

Uma vez foi um choque,
que deixou para trás uma longa e cintilante cauda de cometa.
Mantém-nos dentro de casa. Torna nevada a imagem da TV.
Aquieta-se em gotas frias sobre os fios de telefone.

Pode-se ainda ir de skis devagar sob o sol de inverno
através de arbustos onde algumas folhas se demoram.
Parecem páginas arrancadas de velhas listas telefónicas.
Nomes engolidos pelo frio.

É ainda maravilhoso sentir o coração a bater,
mas a sombra parece muitas vezes mais real que o corpo.
O samurai parece insignificante
por trás da armadura de escamas do dragão negro.

(Tradução do inglês de Maria Catela)


http://mariacatela.blogs.sapo.cv/8402.html


Aanish Kapoor: turning the world upside down 


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A insegurança nacional

A sub-secretária se inclina para a frente e desenha um X
e seus brincos balançam como espadas de Damócles
Tal qual uma borboleta manchada é invisível no chão
também o demônio se mescla ao jornal aberto.
Um elmo vestido por ninguém tomou o poder.
A mãe tartaruga foge voando sob a água.

(Tradução de Luciano Ramos Mendes)



*

Depois da RDA (visita de cinco dias em 1990)


O olho todo-poderoso do ciclope foi partido em meio às nuvens
e à grama bufando dentro da poeira de carvão.

Magoados pelos sonhos da noite
nós subimos à bordo de um trem
que se detém em todas as estações
para botar lá uns ovos.
Tudo parece tranqüilo…
Badalando os baldes dos sinos das igrejas
Que buscam por água
E a tosse implacável de alguém
Que engasga tudo e todo mundo.

Um ídolo de pedra que comove-se aos prantos:
eis a cidade.
Onde os mau-entendidos dominam
entre os vendedores dos quiosques os açougueiros os carpinteiros os oficiais da marinha
os mau-entendidos de bronze, os universitários,

Que aos meus olhos fazem mal!
Eles viram
Eles leram ao surdo lampejo das lanternas dos pirilampos

Contudo, nós entendemos o badalar
Dos baldes dos sinos das igrejas, que buscam por água
Todas as quartas-feiras
- mas já estamos na quarta?-
Vejam só o que nos dão no lugar do Dia da Domingo!

(Tradução de Tiago Guilherme Pinheiro)

*




Allegro

Eu toco Haydn depois de um dia escuro
e sinto um calorzinho nas mãos.

As teclas desejosas. Os martelos gentis.
O som é jovem, vigoroso e silencioso.

O som diz que existe a liberdade
e que não se devem impostos ao imperador.

Eu enfio minhas mãos nos meus haydn-bolsos
e imito um homem tranqüilo sobre o mundo.

Eu ergo minha haydn-bandeira. O sinal é:
“Jamais nos renderemos, mas queremos paz.”

A música é uma casa de vidro na encosta
onde voam pedras, rolam rochas.

As rochas rolam e a atravessam
mas as vidraças continuam intactas.

(Tradução de Luciano Ramos Mendes)


Cloud Gate de Anish Kapoor.


Depois de uma morte


Houve então uma colisão
que deixou para trás uma longa, bruxelante cauda de cometa.
Fechou-nos em seu interior. Fez com que nevassem as imagens da TV.
Formou estalactites frias nos fios dos telefones.

Ainda é possível esquiar lentamente sob o sol invernal
Em meio a alamedas onde umas poucas folhas perduram.
Parecem páginas rasgadas de antigas listas telefônicas
Nomes engolidos pelo frio.

É bonito ouvir o coração bater
Mas é comum que a sombra pareça mais verdadeira que o corpo.
O samurai fica insignificante
Ao lado de sua armadura de escamas de dragão negro.

(Tradução de Tiago Guilherme Pinheiro)


*


Madrigal


Herdei um bosque sombrio onde raramente vou. Mas chegará um dia em que os mortos e os vivos trocarão de lugar. Então, o bosque se colocará em movimento. Não estamos sem esperanças. Os crimes mais difícies continuam sem solução, apesar dos esforços de muitos policiais. Do mesmo modo, há em nossa vida um grande amor por solucionar. Herdei um bosque sombrio, mas caminho em um outro bosque, o luminoso. Todas as criaturas que cantam, serpenteiam, mexem a cauda e se arrastam! É primavera e o ar é muito forte. Tenho um diploma da universidade do esquecimento e estou tão vazio quanto a camisa que seca no varal.

(Tradução de Luciano Ramos Mendes)


*


Haikais


Forte e lenta brisa
Da livraria marinha
- Descasarei em paz aqui

A grama crescente…
Sua face uma runa, pedra
ascendente na memória

Na biblioteca das meias-espertezas
Um livro-sermão na estante
Intocado

Desgrenhados pinos
Num pântano trágico
- para sempre, eternamente

O Cavalo da Morte salta sobre mim
Eu sou um problema de xadrez
E ela, a solução.

Ele escreve e escreve…
Cola fluindo pelos canais;
Uma gôndola atravessando o Styx.


(Tradução de Tiago Guilherme Pinheiro)
http://blog.meiapalavra.com.br/equipe-meia-palavra/

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Tomas Tranströmer
Homenagem do Museu Nacional da Poesia e Tropofonia
Brasil 









Tomas Tranströmer
Homenagem do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa,
da Faculdade de Letras da Universidade do Porto * 
Portugal






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TOMÁS TRANSTRÖMER OU A FASCINAÇÃO DA INANIDADE

Luis Costa Lima

Ler Tomas Tranströmer é uma experiência única e maravilhosa. A sua obra, embora pequena, alberga uma potência fenomenal. Por isso se encontra traduzida em mais de 30 línguas; por isso Tranströmer é, desde há anos, também um dos principais canditatos favoritos ao Prémio Nobel da Literatura. Infelizmente ainda não o ganhou e talvez nunca o venha a ganhar.
Tranströmer inicia-se na poesia com 23 anos de idade. O seu primeiro livro traz o título 17 dikter (17 poemas). A maior parte da obra é escrita em verso livre, embora também tenha experimentado com a linguagem métrica. Na sua escrita nota-se, por vezes, uma certa disciplina horaciana. Como podemos ler no livro de memórias, Minnena ser mig (as recordações vêm-me): 

Horácio era para mim como um contemporâneo; era como um René Char, um Oskar Loerke ou um Einar Malm.

Em 1990 foi vítima de um derrame cerebral que lhe afectou a capacidade de falar. No entanto recuperou a saúde de novo. Anos depois sofre uma série de derrames cerebrais. Desde então escreve sob grandes dificuldades. Impedido de escrever por mão própria, é a sua esposa que vai apontando os seus poemas (isto por meio de um processo muito complicado, pois Tranströmer só consegue dizer sim e não), cada vez mais raros e lacónicos, mas nem por isso de menor qualidade. A sua originalidade e magia residem exactamente nessa fantástica capacidade de, num punhado de vocábulos, ser capaz de exprimir aquilo para o qual muitos escritores precisam de cem:


E o que era “eu”
É uma simples palavra
Na boca das trevas de Dezembro   

No poema “Em Março de 79”, que sublinha esta sua tendência  para o laconismo, podemos ler o seguinte:   

Farto de todos aqueles que com palavras fazem palavras mas onde não há uma linguagem;
Dirigi-me para a ilha coberta de neve.
A veação não conhece palavras.
As páginas em branco dispersam-se em todas as direcções.
Eu dei com vestígios de cascos de corça na neve.
Linguagem, mas nenhuma palavra.

Embora Tranströmer nunca tenha escrito textos teóricos acerca da sua poesia, podemos no entanto ver nestas palavras uma espécie de poema programático, ou seja, uma metapoética. Neste poema, como acabamos de ver, defende-se uma poesia do termo singelo e conciso, da pureza inicial, de uma linguagem para lá das palavras “muda”, muito próxima do Budismo Zen. O que interessa aqui não são as palavras em si, ou uma mensagem inteligível, mas sim a linguagem que advém dessas palavras e que se libertou de todos os condicionalismos usurários que elas lhe pudessem impor. Quer dizer as palavras despiram-se dos seus significados individuais para se transfigurarem num corpo unificado e vivo, ou seja, numa linguagem absoluta, que nos deixa compreender tudo para além de todo o entendimento.

Tranströmer aposta, assim, sobretudo, na intensidade e, a partir desta linguagem de imagens concentradas, fulgurante, a qual não precisa de muitas palavras, provoca no leitor uma sensação de deslumbramento e surpresa, que, em muitos casos, pode ser considerada fantástica e até mágica. Esta linguagem simples e clara, mas carregada de metáforas audazes, de uma imaginação fantástica e de uma imensa variedade de associações, possui, de facto, uma intensidade e uma força ao mesmo tempo telúricas e surreais. Vejamos um exemplo:


Encontro-me de pé sob um céu estrelado
E sinto como o mundo rasteja
no meu sobretudo, para fora e para dentro,
qual um formigueiro


Ainda que a lírica de Tomas Tranströmer possa, por vezes, à primeira vista, levar o leitor mais desprevenido a considerá-la uma lírica da natureza, dado que são constantes as referências a animais, objectos e fenómenos da natureza (a formiga vermelha, as tempestades, o mar, a floresta, as estações do ano, os campos etc. ) ela é, porém, muito mais do que isso. Ela não se constrói a partir de certos “acontecimentos“ que se efectuam na natureza, e que por isso são considerados, como acontece na Naturlyrik dos alemães, uma primeira base do ser, nem pretende descrever simples fenómenos da natureza. Através da observação do mundo físico o poeta vai-nos revelando a inanidade existencial: o invisível torna-se-nos acessível porquanto nos sentimos seduzidos pela magia das verdades ocultas e pelos segredos impenetráveis e por isso vazios. Este universo poético mantém-se sempre muito próximo da realidade do dia a dia, no entanto, como nos diz Harald Hartung no ensaio “Tomas Trantrömer: Der Kampf um den Namen”:

ele não é deste mundo, ele é antes um espaço imaginário que projecta uma luz fresca, mas intensa, sobre os objectos e os homens.


Esta poesia tem como peculiaridade o momento. Na maior parte dos poemas de Tranströmer, deparamos com a evocação de um momento, vivido ou imaginado, que nos é transmitido quase fotograficamente. No entanto este momento, que lhe provocou a necessidade de poetar, ou seja, que ele procurou fixar em palavras, e que à primeira vista pode parecer uma mimésis da realidade circundante, já nada tem a ver com aquilo que o poeta em determinado momento observou, viveu, ou mesmo sonhou. Ao ser integrado no corpo do poema por meio da palavra poética, o momento sofreu uma transmutação: ele tornou-se numa realidade autónoma, ele tornou-se como António Ramos Rosa diz num dos seus ensaios: “presença da ausência”. Por isso o poema transcende a fugacidade do momento, dando-lhe uma continuidade que o transgride e ultrapassa a simples experiência física e sensorial:

Fim de estação. Eu continuei a viagem
Para além do fim da estação.
Quantos eram? Quatro,
Cinco, poucos mais.
Casas, caminhos, nuvens,
Enseadas azuis, montanhas
Abrem as suas portas



Como podemos ver, esta poesia é uma evocação do momento, único e irrepetível. O mundo natural, com todos os seus fenómenos inerentes, ao tornar-se palavra, torna-se numa nova realidade, uma realidade que se pode encontrar, por vezes, muito perto do delírio surrealista. Esta nova realidade já nada tem a ver com os fenómenos apreendidos pelo eu lírico. Dentro do poema ela transcende-se até à irracionalidade. Em torno de uma simples imagem, abrem-se ao leitor portas e portas: esta linguagem não precisa de uma interpretação, ela é a voz do silêncio, a voz do vazio total, do vazio do sujeito e das coisas, ponto de saída e ponto de encontro. Por isso a linguagem poética de Tranströmer aproxima-se bastante dos princípios do Budismo Zen. Vejamos a primeira quadra do poema “Adernagem da noite para o dia”:


Quieta, a formiga acorda, espreita para dentro do
nada. E para além das gotas da escura folhagem e
do murmúrio nocturno, profundo no desfiladeiro do verão,
não se ouve mais nada.



Nestes quatro versos encontramo-nos perante uma atmosfera própria do Budismo Zen, ou seja, aqui tudo é silêncio e inanidade, aqui toda a vontade e cobiça foram abolidas, tudo comunga do nada, tudo se encontra imerso nesse nada. O próprio EU lírico abdicou da sua identidade e de toda a vontade. Ele já não é apenas um observador, ele é parte integrante deste momento-nada.

Frente à intensidade deste universo poético, o leitor não coloca questões. Ele vive a sensação do momento, a sensação electrizante desta linguagem, a sua magia toda poderosa, que se movimenta entre a frase lacónica, simples e clara e uma metafísica irracional. E o poeta, sabendo isto melhor do que ninguém, leva-nos a a participar deste momento único -  momento em que natureza, homem e cosmos, se unem sob a aliança do indizível, do silêncio do vazio-essência:


grande e vagaroso vento
da biblioteca do mar.
Aqui posso descansar.


In Revista Agulha, nº 60,  novembro/dezembro de 2007


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